17-08-2013, 02:08
~Entrevista a Domingos Costa - PARTE I
Domingos Costa. O homem mais irreverente a pilotar um carro na Fórmula 1. Único a vencer no nosso país. Três títulos mundiais. Poucos rivais, muitos amigos. Número um de sempre? Ou amigo número um de toda a gente? Costa sempre foi trabalhoso, companheirista, apesar de algumas intrigas com alguns grandes pilotos pelo seu estilo irreverente.
Entrevistador (Diogo Parente) - Domingos, uma pergunta algo pessoal. Como consegues ser tão jovial?
Domingos Costa - A minha mulher sabe escolher a minha roupa. E claro, tenho charme latino!
Início da Lenda...
E - Bom, passando mais à parte do teu crescimento. Certamente pensaste em ser piloto de Fórmula 1 muito cedo, não?DC - Não, foi algo que aconteceu por acaso. O meu sonho sempre foi, e de alguma forma sempre será, ser jogador de futebol. Principalmente no FCP. Imaginava sempre marcar o golo da vitória da Liga dos Campeões ou algo parecido, entrar num estádio e toda a gente gritar o meu nome. Comecei a ganhar o gostinho automobilismo quando fui a um aniversário de um amigo meu no kartódromo de Leça. Cheguei lá, e fiz a volta mais rápida do meu escalão na pista. A partir daí, foi sempre a subir.
E - Conta-nos então como foi a tua subida categórica nos escalões de base até chegares à categoria-rainha do automobilismo.
DC - Tive sorte de ter um pai que pensou sempre em mim. Nunca olhou para o dinheiro, olhou sempre para o futuro. Analisava todos os factores. Via sempre qual era o carro que melhor se adequava a mim. Além disso, também fiz um grande amigo, que era agente de pilotos, mais notavelmente do Pedro Lamy, que me conseguiu arranjar um treino na equipa dele de Fórmula Opel, o Rui Andrade.
E - Não achaste arriscada à tua ida, sozinho, com menos de 15 anos, a andar pela Europa fora? Tu foste o sucessor de Rafael Almeida nas várias categorias de base. Sonhavas chegar à Fórmula 1 e seguir as pisadas das quatro grandes promessas na altura? [n.d.r. - Daniel Ferreira, Leandro Ferreira, Rafael Almeida e Tiago Santos]
DC - Achei. E os meus alicerces da altura, pais e agente acharam. Mas também sabiam que tinha qualidade. Quem não arrisca, não petisca, sempre ouvi dizer. E, além do mais, andei numa escola de inglês desde os 5 anos por algum motivo!
E - E o título na GP2. Corrias na Dams, equipa satélite da Renault F1. Ganhaste o campeonato ante grandes pilotos como o Miguel Guedes, André Faustino ou Emanuel Santos. Como foi essa experiência?
DC - Fácil demais e algo cómica. Pensava que não estava preparado para a F1, e afinal de contas... já nem me lembro com quantos pontos de avanço ganhei.
E - E como avaliaste a concorrência nesse torneio? A Dams também tinha direito às melhores peças, ao contrário das outras equipas...
DC - Parece que só ganho com os melhores carros (risos). Das duas uma, ou eu era fora de série, ou os restantes eram fracos. Acho que sou o melhor dessa fornada. Em relação à concorrência, foi baixa nesse torneio. Talvez por ser excelente, talvez por ter tido um ótimo carro, talvez por sorte.
E - No fim desse campeonato, não recebeste nenhuma proposta da Renault. Não ficaste relativamente chateado com o facto de não teres ido para a Renault?
DC - Claro. Põe o João Heleno, que era mau que dói, e o Emanuel Santos, que tornou-se o Fábio Paim da Fórmula Um. Peninha nenhuma.
E - E no entanto bem podes agradecer a Daniel Ferreira por ter convencido da Mercedes GP a contratar-te e a "emprestar-te" à Force India, não?
DC - Obviamente. Amigos serão assim. Como ele tem de me agradecer por muita coisa, e vice-versa.
E - Vamos então recapitular a tua carreira e ir até ao 1º grande prémio. Aliás, à 1ª qualificação. O teu companheiro de equipa era o Samuel Filipe, na altura. Ele fez 2º, e tu apenas 18º nessa qualificação. Temeste que ias passar árduos tempos na Fórmula 1 ou "era só uma qualificação" e nada mais?
DC - Ah, saudades incertezas de novato. Claro! Tinha quê, 18 ou 19 anos, nem sabia onde me tinha metido. Mas o Vitaly veio falar comigo e disse que confiava em mim. Pudera...
E - Pudera porquê?
DC - Eu era a maior promessa da altura. Tinha que confiar em mim, senão bem que estava tramado com os patrocinadores, que preferiam um piloto mais seguro.
E - Mas tudo acabou por correr bem e finalizaste o grande prémio numa excelente 5º colocação...
DC - Das melhores corridas que tive. Faz-me lembrar a primeira vez que tive sexo! (risos à javardo) Inseguro do que sabia, mas sendo agressivo e cheguei ao 5º lugar! Fantástico.
E - Chegaste à frente de dois pilotos experientes, André Lima e Carlos Viero.
DC - André Lima... esse jogava F1, não conduzia um carro. O Viero era um porreiro, até festejamos a primeira vitória!
E - Nas oito corridas seguintes, quatro lugares nos pontos e quatro outros tantos abandonos. A época de rookie é sempre complicada a nível de fiabilidade?
DC - Um pouco. Experiência nula, irreverência devido à juventude, um sem fim de coisas. Não percebia muito bem os pneus, inclusive.
E - E chegou o primeiro pódio, na Alemanha. Beneficiaste do abandono do Neves, que ia em primeiro, na última volta e também quase atingias o segundo lugar porque o António estava com problemas. Porém, o campeão do mundo em título na altura, Daniel Ferreira, estava a tentar atacar-te a terceira posição. Lembras-te desse grande prémio, onde o Viero ganhou pela primeira vez?
DC - Lembro-me, pois! Não foi a Isa que ficou com o segundo lugar?
E - Isso foi na corrida seguinte, na Hungria, grande prémio famoso pelos despiques com João Neves. Como foi essa rivalidade, que durou até ao fim do campeonato?
DC - Ah, bolas, então estou a confundir. Uiiiiiii, essa rivalidade. Fantástica, das melhores de sempre.
E - Queres revelar pormenores dela?
DC - Ele odiava mesmo. A primeira coisa que perguntava ao engenheiro quando chegava à pit era se tinha ficado à minha frente nos tempos livres, ou na qualificação.
E - Já dás mais detalhes dessa rivalidade daqui a pouco. Continuando com a cronologia do 2º Torneio, o 3º pódio consecutivo chegou em Spa-Francorchamps, atrás das imbatíveis McLaren da época. Nesta altura, Rafael Almeida liderava o campeonato com António Silva atrás e Tiago Santos um pouco mais afastado. Achavas, na altura, um bocado impossível o homem da Red Bull chegar ao título, mesmo com 7 rondas pela frente?
DC - Não. Era a Red Bull, por amor de Deus. Uma das coisas que mais tenho pena é não ter conduzido esse carro.
E - Darás o resumo dessa temporada daqui a pouco. Após esse GP da Bélgica, três grandes prémios com dois lugares nos pontos. Porém, o teu dia chegava com a vitória na Coreia. Como descreves esse grande prémio?
DC - Melhor GP da minha carreira. Foi a primeira vitória! E com uma Force India! Fantástico, acho que provei aí que não era sorte de principiante, com uma grande vitória.
E - Até ao fim, mais dois pódios, em casa da equipa, Índia, e o outro no Brasil. Como avalias a tua prestação nessa temporada de estreia?
DC - Excelente. Tinha arranjado lugar numa equipa de topo no ano a seguir, na Mercedes, esperava manter a "pujança" com que comecei a minha vida na F1.
E - Como avalias a prestação das Mercedes, McLaren, Red Bull, Ferrari e Renault nessa temporada?
DC - As Mercedes fizeram o que tinham a fazer. O Daniel era candidato ao título por ser quem é, já que não tinha carro para lutar pelo título, só com sorte. A McLaren foi a melhor equipa, colocando dois pilotos no pódio, com o António a dois pontos do campeão. A Red Bull teve um Leandro desapontante, mas um Tiago campeão. A Ferrari continuava nas ruas da amargura, e a Renault teve um Emanuel de grande nível, mas um segundo piloto de merda. Nem percebo como chegou a piloto de Fórmula Um.
Primeira Rivalidade...
E - Fala sobre a tua rivalidade com o João (Neves) na altura.
DC - Epah, ele aziou porque o Daniel tinha-me vindo ajudar com umas coisas na configuração do carro. Não sabia se, naquela pista, teria de puxar mais nas curvas ou menos. E ele pensou que o Daniel foi dizer segredos sobre a estratégia deles e pronto, começou a dizer que eu era uma bosta, e que era melhor do que eu.
E - Mas pegando no último pódio dessa temporada, no Brasil, foi uma boa prova que realizaste, ficando apenas atrás do Daniel e do António.
DC - E não só. Aquela ultrapassagem final foi deliciosa, e das melhores coisinhas que aconteceu à Force India. Devia de ser considerada um dos momentos chaves da história da equipa indiana.
E - Podes dar detalhes desse momento chave?
DC - Foi o cume da rivalidade com o Neves. Depois disso, na conferência de imprensa final, um jornalista ingles perguntou-me como me senti ao ultrapassar o João, ao qual respondi, em Inglês, enquanto me ria :"There is a saying in Portugal that says "Who laughs at the end, laughs better." And well, i'm laughing." Foi um sucesso de marketing. A Force India fez camisolas com a minha cara a rir num carro da Force India e um capacete em cima de um carro idêntico à Mercedes, enquanto dizia essa frase em várias línguas. O dinheiro que entrou à pala disso...
Primeira Dupla com Daniel...
E - Depois, a recompensa. Um contrato com a Mercedes, como segundo piloto de Carlos Viero. Não achaste isso muito modesto para ti?
DC - Um pouco. Fiquei á frente do Viero. Felizmente, esse torneio foi cancelado por não sei quê. Acho que foi por doping, ou uma coisa parecida.
E - Sim, cinco casos de doping na altura. Queres falar sobre isso? Todos foram ao controlo e cinco foram apanhados. Um escandâlo na altura, visto que Daniel Ferreira foi incluído, conjuntamente com Bruno Ferreira, João Neves, José Luís Ginjo e Tomás Pelicano.
DC - Não sei de nada, e mesmo que soubesse, não iria revelar nada. O Daniel só me disse que foi tramado nisto. Não sei mais nada.
E - Achas que isso foi uma "vingança" de Leandro Ferreira pelo primeiro torneio perdido?
DC - Não acredito nesses filmes todos. Aposto que foram "maluquices" que os 5 fizeram, e pronto, deu nisso.
E - Continuando a falar de ti, foi reposto o Terceiro Torneio no Carset 1986. Conseguiste um contrato na Ferrari, como segundo piloto mas com uma vantagem que o contrato da Mercedes. Irias ser companheiro de Daniel Ferreira, melhor piloto na altura. Aprendeste muito com ele?
DC - Já tinha aprendido muito com ele, mas estando na mesma equipa que ele, a aprendizagem iria melhorar. Contudo, ele deu-me as bases, mas quem me moldou não foi ele. Criado por Daniel Ferreira, mas não desenvolvido/potenciado por ele.
E - Nesse torneio, tiveste a tua segunda e terceira vitória. Estoril e Cidade do México. Locais especiais para ti?
DC - Sou o único a ganhar nesses sítios! Aliás, uma das coisas que mais me orgulho na minha vida é ter sido o único a ganhar o Grande Prémio de Estoril. Acho que até deviam mudar o nome do circuito para o meu nome.
E - Nesse campeonato, o Daniel Ferreira fez milagre ao lutar até ao fim com o pior carro do pelotão. Achas que ele merecia o campeonato, não só pela tua ajuda, que foi valiosa, mas também pelos milagres que ele foi fazendo ao longo do campeonato?
DC - Merecia, mas era algo impossível. Tinhamos o pior carro do pelotão, e a Williams é algo de maravilhoso. Falo por experiência própria. O Tiago Santos e o Rafael Almeida eram os naturais candidatos ao título.
"Ir ou estar no Dragão, é o mesmo que ir ou estar na casa e no coração de todos e cada um de nós, pois todos somos o Dragão, símbolo do nosso clube e da nossa cidade."
