12-05-2015, 21:05
Daniel Ferreira - Como ser um campeão
CAPÍTULO 1
OS PRIMEIROS PASSOS
O meu pai sempre foi o primeiro a dizer que jamais planeava ou sonhava que eu me tornasse um piloto de competição, mesmo quando me construiu o primeiro kart, que atingia 60 km/h como velocidade máxima. No início, ele entendia que isto, pura e simplesmente, seria um entretenimento para mim, um simples miúdo de 6 anos que era hiper-activo. Como certamente, 80% das crianças da minha idade. O meu pai era dono de uma metalúrgica, na pequena vila de Arcozelo. Homem de negócios, o meu pai Luís sempre teve orgulho em mim e no meu irmão, também piloto.
Homem de origem simples, nascido em 1943, começou a fazer a sua fortuna pessoal no ramo de compra e venda de automóveis usados. Comprava-os mais baratos, vendia-os mais caros. Umas belas maroscas. Negociava com as pessoas da zona, nada mais.
Habilidoso e rigoroso no trato do dinheiro, o meu pai não demorou a adquirir um capital que lhe possibilitasse a passagem de classe média para classe média alta. Com isso, o meu pai não demorou a fazer negócios mais vantajosos para a família. Quando eu nasci, já o meu pai geria a carreira do Bruno, 9 anos mais velho que eu.
Senhor Luís, como é tratado respeitosamente por todos, inclusivé pela minha mãe Celeste, sempre foi um apaixonado por carros e corridas. Apesar já da veterana idade, acompanhava-me sempre a mim e ao meu irmão a todos os Grandes Prémios, fossem eles na Espanha ou na Austrália. Ora num Grande Prémio ficava na minha boxe, ora noutro Grande Prémios ficava na boxe do meu irmão.
O automobilismo português cresceu imenso com a aparição dos grandes pilotos que foram os que frequentaram os primeiros torneios dos campeonatos BatRacer FMPT F1. Fizemos, quase ao mesmo tempo, a “formação” toda: kart todos juntos: regional, nacional, continental e mundial. Depois, uns rumaram para a Alemanha, outros para a Inglaterra. Eu rumei para a Inglaterra e não me arrependi. Mas falando do título do capítulo, não me quero escapar muito.
O kart que o meu pai construiu, pensava ele, era para brincar. Uma alternativa às bicicletas, trotinetes e skates. Mas como raio ia andar de kart pelas ruas? Aquilo era para andar nas pistas de kart.
Porém, apesar da minha ambição, quando era criança, de ser como Michael Schumacher, Damon Hill ou Jacques Villeneuve, nunca dei a entender aos meus pais que queria ser um piloto de alta competição, um campeão como Ayrton Senna, meu ídolo, apesar de não o ter visto correr (morreu quando eu tinha 2 anos de idade) ou como Mika Hakkinen, meu piloto preferido.
A minha mãe e a minha irmã Cristina eram testemunhas diárias do meu jeito desastrado e a minha média de tombos, escorregadelas e batidelas com a cabeça era gigante. As minhas pisaduras e galos na cabeça eram uma constante no meu dia-a-dia.
Ser canhoto também era um revés. A minha mãe também contratou uma professora, especificamente para me forçar a mudança de escrita da mão esquerda para a direita. E a minha hiperatividade também deu dores de cabeça a ela. Fui de propósito a uma neurologista para tratar deste meu problema.
Porém, o resultado do exame foi tranquilizante. Eu era apenas um miúdo desajeitado. Como muitos da minha idade o eram. Mas nem de males o mundo é feito. Aprendia depressa as coisas. Era o melhor aluno da minha turma. Nos meus tempos livres, além do estudo, via uma série, na Cartoon Network chamada “Capeta”. Não, não era sobre o diabo, mas aquilo captou-me de tal forma que eu tinha mesmo que ser o melhor. O melhor. Como Capeta foi naqueles desenhos animados.
Então, o meu pai Luís não teve mais nada que fazer senão levar-me à escola de karts mais próxima, na cidade de Espinho, onde o Bruno também se iniciou. Pela primeira vez, ia levar o meu kart para competir com outros, nem que fosse só para treinar. Estavam lá mais 5 miúdos a treinar. Um deles ainda hoje corre. Foi a primeira vez que o vi. Tiago Manuel de Oliveira Santos, 12 dias mais novo que eu, era já o melhor, a dar cartas, ali.
Era a minha vez de mostrar o que valho. Entrei no kart. E a ternura como tratava o meu kart desde logo despotou a atenção de tudo e todos. Bati o recorde da pista por 12 milésimos, à frente do meu grande amigo e rival Tiago Santos.
Aí, o meu pai resolveu construir uma pista de kart em Arcozelo. Assim, eu, o TIago (também arcozelense) e todos aqueles pilotos que quisessem ir lá treinar, não precisavam de ir até Espinho. Por essa mesma pista, propriedade agora minha e do Bruno, passaram pilotos que estão ou vão dar os primeiros passos na Fórmula 1: Isa Santos, Ivo Correia, Tiago Ramos e Bruno Ramos.
João Alberto foi a primeira vítima de Daniel e Tiago. “Caramba, eles têm apenas 9 anos e eu, com 15, não consigo competir com eles!”.
Primeira corrida para o campeonato regional. A equipa de Arcozelo, comigo e com ele, entrava pela primeira vez, oficialmente, numa corrida. Luís e António (pai do Tiago), estavam ansiosos, nervosos pelos filhos. Um dos dois, quando o outro não pudesse, acompanhavam-nos. O que aconteceu? 1º e 2º lugar. Primeiro ele, segundo o Tiago. Era sempre assim. Ou eu em primeiro, ou ele em segundo. Nunca houve outros que ocupassem as duas primeiras possível naquele ano de 2001. Tanta competitividade ia levar a que o título fosse decidido na última corrida, em Alpendorada. Vitória para o Tiago, eu logo atrás. O Tiago ganhava o título. Reconheço mais rapidez nele que na minha pessoa.
SUSTO EM COIMBRA
Para entrarmos no campeonato nacional, temos de ter, no mínimo, 10 anos. Para entrarmos num campeonato continental (existem vários, organizados na Alemanha, Inglaterra, Espanha, etc.) precisamos de ter 12 anos. Para entrarmos num campeonato mundial (o mesmo que disse acima) precisamos de ter, no mínimo, 14 anos. Eu tive a sorte de entrar no campeonato nacional com os 10 anos mínimos. Tal como o Tiago, mas o Tiago entrou para outra equipa. Pela primeira vez na carreira, na minha curta carreira de um ano, ficava sem o Tiago na minha equipa. Só o reencontraria na Fórmula 1. A minha equipa era constítuida por 3 pilotos: eu, Tobias Teixeira e Carlos Castro. Eu corria, eles andavam. Não andavam nada! Naquela altura, os karts já não tinham a limitação de velocidade como no regional. De 60 km/h. Já eram de 100 km/h. Muito para uma criança de 10 anos. As proteções das pistas eram de relva e pneus velhos usados.
“Mataram o miúdo!”
Disse o meu pai a um jornalista amigo, Leonardo Martins. Na minha primeira corrida oficial no campeonato nacional, eis que tenho um acidente feio. O meu kart vira ao contrário, provocado por um matulão qualquer. Porém, não sei porquê, o director de corrida, depois de eu ter alcançado a pole-position, na primeira corrida no campeonato nacional, decide inverter a ordem do grid. Ou seja, eu ia largar da última posição, tinha de ultrapassar esses barbeiros todos.
A corrida tinha 40 voltas. Na 35ª volta, já ia na 6ª posição. Ao tentar ultrapassar o sujeito que me atirou para fora, ele continua a acelerar onde não devia e não evitamos o choque.
O meu pai correu para o local do acidente, pensando no pior.
Saí do carro, olhei de revés para o miúdo, sacudi a poeira e pensei que o que ia acontecer a seguir era a minha retirada. Mas o meu pai deu-me uma segunda oportunidade. Afinal, a culpa não tinha sido minha.
OS PRIMEIROS RIVAIS
Cláudio Mauro começou a correr de kart dois anos antes de mim. Era natural de Tondela. Tinha feito o curso de pilotagem numa escola de kart em Viseu. Cláudio era a sensação antes do começo das aparições da fornada de 1991 e 1992. Um dia, Dudu Salomão, mecânico de Cláudio, avisou-lhe:
- Cuidado com esses nomes que começam a aparecer por aí. Vão ofuscar-te.
Cláudio não ligou. Até ao dia em que eu apareceu-lhe à frente. Destacava-me no nacional, há frente de nomes que mais tarde viria a rivalizar: Leandro Ferreira, Rafael Almeida, Tiago Santos, António Silva e Isa Santos.
Tirando a primeira corrida, em que fui completamente arredado por aquele matulão ao qual nem o nome me recorda, saí sempre da pole. Mas o Cláudio passava-me na largada. Largava sempre melhor. Nunca percebi o porquê. Era dom dele, talvez. Acelerava certamente uns milésimos mais cedo. Nunca me disse.
A nossa rivalidade era a maior na altura. O terceiro melhor piloto era o Rafael Almeida, mas ainda não era o que foi quando passamos para os monolugares. Na altura, os karts tinham de ser empurrados para as voltas de aquecimento. Nos karts, geralmente, são precisas cerca de quatro ou cinco voltas de aquecimento. Depois das voltas de aquecimento, os karts tinham de partir lado a lado. 1º ao lado o 2º, 3º ao lado do 4º e assim sucessivamente. Porém, ao tentarmos adivinhar quem partia em vantagem, levava sempre, ou um ou outro a avançar um bocadinho mais e a fazer batota. Isso era frequente. Não acontecia uma, duas, três vezes, era muitas vezes. E isso irritava os directores da prova. Quase sempre, durante o campeonato, íamos para o fim do grid de largada. E muitas vezes, ou eu ou ele ganhávamos.
Foi numa dessas vezes que eu tive um acidente gravíssimo no fim da recta do kartódromo do Estoril. Ao tentar usar uma técnica que, ao tocar na traseira de um adversário, o adversário saía de pista e eu continuava em pista, o meu kart capotou. O meu capacete saiu-me da cabeça. Fiquei ali no meio da recta. Desmaiado. Essa técnica era muito usada. Só assim, muitas vezes, é que conseguia ultrapassagens. Eu abusava dela, admito.
Porém, com o Cláudio, fiz uma dupla terrível, na prova de consagração do campeão, que acabei por ser eu naquele ano. Os primeiros classificados tinham de usar um kart bem pior. Com karts inferiores, conseguimos bater grandes pilotos de kart como Tiago Campos, Leandro Ferreira e Rafael Almeida. A vantagem, no final, foi de três voltas. Mesmo estando na mesma equipa, eu e o Cláudio Mauro não nos falávamos..
Os dois tinham em comum a determinação e profissionalismo. Eu estudava de manhã e passava as tardes no kartódromo, excepto duas vezes por semana, quando também tinha aulas de tarde. Já o Cláudio era o contrário. Estudava à tarde e usava o kartódromo de Arcozelo todos os dias de manhã.
Todos os fins-de-semana havia corrida. E a corrida podia ter 28, 30 pilotos. Quem ganhava, ou era eu, ou era ele. Não falhava. Se falhasse, davamos a chance do Leandro, Rafael ou os Tiagos (Campos ou Santos) ganharem.
Nico Bartolomeu, especialista na modalidade de karting e jornalista da AutoSport, dizia em letras grandes e vistosas: “Daniel é um demónio. Está pronto para ir para a continental.” E continuou “Mas novidade para nós era Daniel não ganhar. Se não ganhasse, novidade era Cláudio não aproveitar.”
Mas quem levava o título nacional de kart do ano de 2005 era eu. Porém, o Cláudio disse que eu fui um campeão sujo. Imediatamente fui falar com ele:
- Mas se tu estás com dor de cotovelo por eu ser campeão e tu não, tens bom remédio: anda mais rápido!
Cláudio virou costas e não me deu resposta. Nunca mais nos encontraríamos. No final da temporada, eu passei para o Continental. O Cláudio passou para o campeonato alemão de karting. Mais tarde, chegou a andar pela GP2 mas não teve sucesso suficiente para passar para a Fórmula 1. Hoje é piloto na DTM.
(cont.)
CAPÍTULO 1
OS PRIMEIROS PASSOS
O meu pai sempre foi o primeiro a dizer que jamais planeava ou sonhava que eu me tornasse um piloto de competição, mesmo quando me construiu o primeiro kart, que atingia 60 km/h como velocidade máxima. No início, ele entendia que isto, pura e simplesmente, seria um entretenimento para mim, um simples miúdo de 6 anos que era hiper-activo. Como certamente, 80% das crianças da minha idade. O meu pai era dono de uma metalúrgica, na pequena vila de Arcozelo. Homem de negócios, o meu pai Luís sempre teve orgulho em mim e no meu irmão, também piloto.
Homem de origem simples, nascido em 1943, começou a fazer a sua fortuna pessoal no ramo de compra e venda de automóveis usados. Comprava-os mais baratos, vendia-os mais caros. Umas belas maroscas. Negociava com as pessoas da zona, nada mais.
Habilidoso e rigoroso no trato do dinheiro, o meu pai não demorou a adquirir um capital que lhe possibilitasse a passagem de classe média para classe média alta. Com isso, o meu pai não demorou a fazer negócios mais vantajosos para a família. Quando eu nasci, já o meu pai geria a carreira do Bruno, 9 anos mais velho que eu.
Senhor Luís, como é tratado respeitosamente por todos, inclusivé pela minha mãe Celeste, sempre foi um apaixonado por carros e corridas. Apesar já da veterana idade, acompanhava-me sempre a mim e ao meu irmão a todos os Grandes Prémios, fossem eles na Espanha ou na Austrália. Ora num Grande Prémio ficava na minha boxe, ora noutro Grande Prémios ficava na boxe do meu irmão.
O automobilismo português cresceu imenso com a aparição dos grandes pilotos que foram os que frequentaram os primeiros torneios dos campeonatos BatRacer FMPT F1. Fizemos, quase ao mesmo tempo, a “formação” toda: kart todos juntos: regional, nacional, continental e mundial. Depois, uns rumaram para a Alemanha, outros para a Inglaterra. Eu rumei para a Inglaterra e não me arrependi. Mas falando do título do capítulo, não me quero escapar muito.
O kart que o meu pai construiu, pensava ele, era para brincar. Uma alternativa às bicicletas, trotinetes e skates. Mas como raio ia andar de kart pelas ruas? Aquilo era para andar nas pistas de kart.
Porém, apesar da minha ambição, quando era criança, de ser como Michael Schumacher, Damon Hill ou Jacques Villeneuve, nunca dei a entender aos meus pais que queria ser um piloto de alta competição, um campeão como Ayrton Senna, meu ídolo, apesar de não o ter visto correr (morreu quando eu tinha 2 anos de idade) ou como Mika Hakkinen, meu piloto preferido.
A minha mãe e a minha irmã Cristina eram testemunhas diárias do meu jeito desastrado e a minha média de tombos, escorregadelas e batidelas com a cabeça era gigante. As minhas pisaduras e galos na cabeça eram uma constante no meu dia-a-dia.
Ser canhoto também era um revés. A minha mãe também contratou uma professora, especificamente para me forçar a mudança de escrita da mão esquerda para a direita. E a minha hiperatividade também deu dores de cabeça a ela. Fui de propósito a uma neurologista para tratar deste meu problema.
Porém, o resultado do exame foi tranquilizante. Eu era apenas um miúdo desajeitado. Como muitos da minha idade o eram. Mas nem de males o mundo é feito. Aprendia depressa as coisas. Era o melhor aluno da minha turma. Nos meus tempos livres, além do estudo, via uma série, na Cartoon Network chamada “Capeta”. Não, não era sobre o diabo, mas aquilo captou-me de tal forma que eu tinha mesmo que ser o melhor. O melhor. Como Capeta foi naqueles desenhos animados.
Então, o meu pai Luís não teve mais nada que fazer senão levar-me à escola de karts mais próxima, na cidade de Espinho, onde o Bruno também se iniciou. Pela primeira vez, ia levar o meu kart para competir com outros, nem que fosse só para treinar. Estavam lá mais 5 miúdos a treinar. Um deles ainda hoje corre. Foi a primeira vez que o vi. Tiago Manuel de Oliveira Santos, 12 dias mais novo que eu, era já o melhor, a dar cartas, ali.
Era a minha vez de mostrar o que valho. Entrei no kart. E a ternura como tratava o meu kart desde logo despotou a atenção de tudo e todos. Bati o recorde da pista por 12 milésimos, à frente do meu grande amigo e rival Tiago Santos.
Aí, o meu pai resolveu construir uma pista de kart em Arcozelo. Assim, eu, o TIago (também arcozelense) e todos aqueles pilotos que quisessem ir lá treinar, não precisavam de ir até Espinho. Por essa mesma pista, propriedade agora minha e do Bruno, passaram pilotos que estão ou vão dar os primeiros passos na Fórmula 1: Isa Santos, Ivo Correia, Tiago Ramos e Bruno Ramos.
João Alberto foi a primeira vítima de Daniel e Tiago. “Caramba, eles têm apenas 9 anos e eu, com 15, não consigo competir com eles!”.
Primeira corrida para o campeonato regional. A equipa de Arcozelo, comigo e com ele, entrava pela primeira vez, oficialmente, numa corrida. Luís e António (pai do Tiago), estavam ansiosos, nervosos pelos filhos. Um dos dois, quando o outro não pudesse, acompanhavam-nos. O que aconteceu? 1º e 2º lugar. Primeiro ele, segundo o Tiago. Era sempre assim. Ou eu em primeiro, ou ele em segundo. Nunca houve outros que ocupassem as duas primeiras possível naquele ano de 2001. Tanta competitividade ia levar a que o título fosse decidido na última corrida, em Alpendorada. Vitória para o Tiago, eu logo atrás. O Tiago ganhava o título. Reconheço mais rapidez nele que na minha pessoa.
SUSTO EM COIMBRA
Para entrarmos no campeonato nacional, temos de ter, no mínimo, 10 anos. Para entrarmos num campeonato continental (existem vários, organizados na Alemanha, Inglaterra, Espanha, etc.) precisamos de ter 12 anos. Para entrarmos num campeonato mundial (o mesmo que disse acima) precisamos de ter, no mínimo, 14 anos. Eu tive a sorte de entrar no campeonato nacional com os 10 anos mínimos. Tal como o Tiago, mas o Tiago entrou para outra equipa. Pela primeira vez na carreira, na minha curta carreira de um ano, ficava sem o Tiago na minha equipa. Só o reencontraria na Fórmula 1. A minha equipa era constítuida por 3 pilotos: eu, Tobias Teixeira e Carlos Castro. Eu corria, eles andavam. Não andavam nada! Naquela altura, os karts já não tinham a limitação de velocidade como no regional. De 60 km/h. Já eram de 100 km/h. Muito para uma criança de 10 anos. As proteções das pistas eram de relva e pneus velhos usados.
“Mataram o miúdo!”
Disse o meu pai a um jornalista amigo, Leonardo Martins. Na minha primeira corrida oficial no campeonato nacional, eis que tenho um acidente feio. O meu kart vira ao contrário, provocado por um matulão qualquer. Porém, não sei porquê, o director de corrida, depois de eu ter alcançado a pole-position, na primeira corrida no campeonato nacional, decide inverter a ordem do grid. Ou seja, eu ia largar da última posição, tinha de ultrapassar esses barbeiros todos.
A corrida tinha 40 voltas. Na 35ª volta, já ia na 6ª posição. Ao tentar ultrapassar o sujeito que me atirou para fora, ele continua a acelerar onde não devia e não evitamos o choque.
O meu pai correu para o local do acidente, pensando no pior.
Saí do carro, olhei de revés para o miúdo, sacudi a poeira e pensei que o que ia acontecer a seguir era a minha retirada. Mas o meu pai deu-me uma segunda oportunidade. Afinal, a culpa não tinha sido minha.
OS PRIMEIROS RIVAIS
Cláudio Mauro começou a correr de kart dois anos antes de mim. Era natural de Tondela. Tinha feito o curso de pilotagem numa escola de kart em Viseu. Cláudio era a sensação antes do começo das aparições da fornada de 1991 e 1992. Um dia, Dudu Salomão, mecânico de Cláudio, avisou-lhe:
- Cuidado com esses nomes que começam a aparecer por aí. Vão ofuscar-te.
Cláudio não ligou. Até ao dia em que eu apareceu-lhe à frente. Destacava-me no nacional, há frente de nomes que mais tarde viria a rivalizar: Leandro Ferreira, Rafael Almeida, Tiago Santos, António Silva e Isa Santos.
Tirando a primeira corrida, em que fui completamente arredado por aquele matulão ao qual nem o nome me recorda, saí sempre da pole. Mas o Cláudio passava-me na largada. Largava sempre melhor. Nunca percebi o porquê. Era dom dele, talvez. Acelerava certamente uns milésimos mais cedo. Nunca me disse.
A nossa rivalidade era a maior na altura. O terceiro melhor piloto era o Rafael Almeida, mas ainda não era o que foi quando passamos para os monolugares. Na altura, os karts tinham de ser empurrados para as voltas de aquecimento. Nos karts, geralmente, são precisas cerca de quatro ou cinco voltas de aquecimento. Depois das voltas de aquecimento, os karts tinham de partir lado a lado. 1º ao lado o 2º, 3º ao lado do 4º e assim sucessivamente. Porém, ao tentarmos adivinhar quem partia em vantagem, levava sempre, ou um ou outro a avançar um bocadinho mais e a fazer batota. Isso era frequente. Não acontecia uma, duas, três vezes, era muitas vezes. E isso irritava os directores da prova. Quase sempre, durante o campeonato, íamos para o fim do grid de largada. E muitas vezes, ou eu ou ele ganhávamos.
Foi numa dessas vezes que eu tive um acidente gravíssimo no fim da recta do kartódromo do Estoril. Ao tentar usar uma técnica que, ao tocar na traseira de um adversário, o adversário saía de pista e eu continuava em pista, o meu kart capotou. O meu capacete saiu-me da cabeça. Fiquei ali no meio da recta. Desmaiado. Essa técnica era muito usada. Só assim, muitas vezes, é que conseguia ultrapassagens. Eu abusava dela, admito.
Porém, com o Cláudio, fiz uma dupla terrível, na prova de consagração do campeão, que acabei por ser eu naquele ano. Os primeiros classificados tinham de usar um kart bem pior. Com karts inferiores, conseguimos bater grandes pilotos de kart como Tiago Campos, Leandro Ferreira e Rafael Almeida. A vantagem, no final, foi de três voltas. Mesmo estando na mesma equipa, eu e o Cláudio Mauro não nos falávamos..
Os dois tinham em comum a determinação e profissionalismo. Eu estudava de manhã e passava as tardes no kartódromo, excepto duas vezes por semana, quando também tinha aulas de tarde. Já o Cláudio era o contrário. Estudava à tarde e usava o kartódromo de Arcozelo todos os dias de manhã.
Todos os fins-de-semana havia corrida. E a corrida podia ter 28, 30 pilotos. Quem ganhava, ou era eu, ou era ele. Não falhava. Se falhasse, davamos a chance do Leandro, Rafael ou os Tiagos (Campos ou Santos) ganharem.
Nico Bartolomeu, especialista na modalidade de karting e jornalista da AutoSport, dizia em letras grandes e vistosas: “Daniel é um demónio. Está pronto para ir para a continental.” E continuou “Mas novidade para nós era Daniel não ganhar. Se não ganhasse, novidade era Cláudio não aproveitar.”
Mas quem levava o título nacional de kart do ano de 2005 era eu. Porém, o Cláudio disse que eu fui um campeão sujo. Imediatamente fui falar com ele:
- Mas se tu estás com dor de cotovelo por eu ser campeão e tu não, tens bom remédio: anda mais rápido!
Cláudio virou costas e não me deu resposta. Nunca mais nos encontraríamos. No final da temporada, eu passei para o Continental. O Cláudio passou para o campeonato alemão de karting. Mais tarde, chegou a andar pela GP2 mas não teve sucesso suficiente para passar para a Fórmula 1. Hoje é piloto na DTM.
(cont.)
"Azul, branca, indomável, imortal, como não pôr no Porto uma esperança se "daqui houve nome Portugal"?"

Depois é para ser editada!!!
![[Imagem: OynHPes.png]](https://i.imgur.com/OynHPes.png)